Um modelo neurocognitivo da adicção - artigo científico

01/07/2018

  • Um entendimento neurocognitivo do comportamento aditivo

Nos anos 1980 as pesquisas sobre adição atraíram muitos estudos sobre o papel do estriado e do sistema dopaminérgico mesolimbico, bem como o da amigdala na recompensa proporcionada pelo uso de drogas (Noël, et al. 2013). Na década de 1990, o córtex pré-frontal atraiu a maior parte das pesquisas sobre o tema e o seu papel na tomada de decisões e no controle de impulsos. Recentemente, o córtex insular é que vem ganhando o interesse de quem estuda a adição (Noël, et al. 2013), (Naqvi, Bechara A, 2009).

Na tentativa de romper com esse modelo fragmentado que estudam um sistema neural de cada vez, estudos recentes sobre abuso de subtâncias e outros comportamentos adictivos, como jogo patológico, trabalham com um modelo neurocognitivo em tríade para identificar os pontos chaves de funcionamento sub-ótimo do sistema cognitivo: 1 um sistema dependente do eixo estriado-amígdala que gerencia os comportamentos automáticos, habituais; 2 um sistema dependente do córtex pré-frontal importante para a auto-regulação e previsão de consequências futuras de um comportamento; e 3 um sistema dependente da insula para a recepção de sinais interoceptivos e a sua tradução em estados emocionais (como a fissura e o desejo), que por sua vez tem um papel importante na tomada de decisões e em processos relativos ao controle de impulsos relacionados a incerteza, ao risco e a recompensa. Esses três sistemas são responsáveis pela tomada de decisão sub-ótima e pelas ações guiadas por estímulos (Noël, et al. 2013; Wei, et al. 2017).

O córtex insular emergiu recentemente como uma estrutura neural chave que tem um papel fundamental na formação da representação interoceptiva, que por sua vez é crucial na experiência emocional subjetiva (Craig, 2009; Naqvi, Bechara, 2009; Damásio, 1999). Além disso, estudos trabalham com a hipótese de que o córtex insular contribui diretamente para o estabelecimento e a manutenção da adição ao traduzir sinais interoceptivos para o que se experimenta subjetivamente como antecipação, desejo ou fissura. (Naqvi, Bechara, 2009; Verdejo-Garcia, et al., 2012). Estudos de imagens confirmam atividade na insula correlacionada com a intensidade com a que um sujeito avalia o seu desejo por cigarros, cocaína, álcool e heroína. (Craig, 2009; Naqvi, Bechara, 2009; Verdejo-Garcia, et al., 2012). Um estudo comprovou ainda que lesões na insula tendem a literalmente apagar o desejo de fumar em sujeitos que previamente apresentavam adição por cigarros (Naqvi, et al., 2007). Nesse mesmo estudo, ficou evidente o papel da insula na adição quando observado que fumantes com lesões que envolviam a insula eram 100 vezes mais propensos a para de fumar subitamente e sem dificuldade e recaídas, do que àqueles que não apresentavam lesões na região.

O córtex insular responde a sinais interoceptivos (devido a um desequilíbrio na homeostase do organismo, estresse, privação de sono, etc.). Para além da tradução desses sinais para o que pode ser experimentado subjetivamente como fissura, ou desejo, supõe-se que a atividade no córtex insular aumenta o impulso e a motivação do comportamento aditivo ao sensibilizando ou exacerbando a atividade do sistema de hábitos/impulsivo e subvertendo os mecanismos do córtex pré-frontal responsáveis pela atenção, tomada de decisão e pelo raciocínio (Wang, et al. 2012).

Algumas teorias sugerem ainda que uma disfunção no sistema interoceptivo pode gerar um déficit na autopercepção o que pode caracterizar a inabilidade em identificar uma doença. (Goldstein et al. 2009; Goldstein, Volkow, 2011) De fato, a maioria dos indivíduos que sofrem de adição não percebem que precisam de tratamento (SAMHSA, 2007).

A descoberta do papel crucial da insula na adição complementa o entendimento neurocognitivo que se tem do comportamento aditivo e sugere uma nova frente de terapias pautadas na modulação das funções da insula no tratamento de adição e outros transtornos do controle do impulso. (Verdejo-Garcia, et al., 2012; Verdejo-Garcia, Bechara, 2009) que visam melhorar a percepção corporal, como as meditações com enfoque no corpo (Verdejo-Garcia, et al., 2012) e outras terapias corporais (Mehling, et al, 2011).


Arthur Dubrule


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