Quiron e a mitologia do Curador ferido

02/09/2017

Dentro da mitologia grega, uma história muito interessante é a de Quiron, o centauro (criatura com corpo de cavalo e ombros e cabeça de homem) "Pai das terapias curativas". 

Quiron era tido como superior aos demais centauros, enquanto muitos de seus irmãos viviam vidas dedicadas a Dionisio, que é na antiga religião grega o deus dos ciclos vitais, das festas, do vinho, da insânia, do teatro, dos ritos religiosos mas, sobretudo, da intoxicação que funde o bebedor com a deidade. Equivalente ao romano Baco. Quíron era inteligente, civilizado e bondoso, e célebre por sua ampla cultura e profundo conhecimento das ervas medicinais e habilidade enquanto curador. Ele fora acidentalmente ferido com uma flecha envenenada lançada por Hércules. Por ser imortal, ele não faleceu por causa deste ferimento, todavia, essa ferida era incurável, e se tornou um sofrimento crônico. Tal situação de desconforto fez com que Quíron, a partir da sua própria dor pessoal, pudesse entender a dimensão do sofrimento daqueles que curava. Isso o transformou em um exímio curador e o fez ser considerado o "Pai das Terapias Curativas" sendo chamado de "Curador Ferido". Carl Jung se apropriou dessa imagem para dizer que um terapeuta pode ajudar na cura de pessoas, por ele mesmo ser um doente e ser capaz por esse motivo de entender melhor do que quem é completamente sadio, o sofrimento do outro. 

Mais tarde, o padre e teólogo Henry Nouwen autor de 40 livros sobre vida espiritual e que trabalhou na Universidade de Harvard, na Universidade de Yale e no Seminári, escreve um livro: O Sofrimento que Cura, falando da maneira tão mística que homens e mulheres marcados por suas dores são capazes de ajudar pessoas e suas feridas no processo da cura. 

Como terapeutas precisamos encarar nossas dores e limitações, e isso nos fará olhar para o outro com empatia, compaixão, misericórdia e amor incondicional. Não somos blindados do sofrimento, mas podemos usar das nossas próprias dores existenciais para agir com reverência diante da dor do nosso próximo. Somos Curadores Feridos.