O corpo e as emoções

23/07/2017

As pessoas têm uma ideia do que é o corpo e buscam melhorá-lo através de dietas, exercício e trabalho, porém nem sempre se dão conta de que o corpo é também fonte do nosso mundo psicológico, de nossos pensamentos e sentimentos. A vida do corpo é mais do que saúde ou exercício, ela representa como estamos vivos e gerenciamos a nossa vida: o cérebro está orientado para a ação, um pensamento ou sentimento é relativo a uma ação ou a inibição de um ação. Compreender a nível da experiência como organizar um comportamento, em uma sequência de passos, é aprender a aumentar e diminuir a intensidade muscular dentro de um movimento. Isso é se auto-influenciar, mudar o seu comportamento e os sentimentos que acompanham

António Damásio (1996) citando William James refere-se a uma declaração polemica do autor que resgatou a importância do corpo e de suas reações fisiológicas na experimentação das emoções. James itera que é inimaginável experimentar uma emoção forte desprovida de uma reação somática corporal: o medo, por exemplo, somente pode ser experimentado através de uma sensação de aceleração do ritmo cardíaco, de respiração suspensa, de tremura dos lábios e/ou pernas e de um aperto no estômago. O postulado de James é, portanto, que existe um mecanismo básico que faz com que determinados estímulos do meio ambiente excitam um padrão específico do corpo. A isso, Damásio acrescenta a noção de um espectro adicional de estímulos e sensações que se associam ao longo da vida aos estímulos inatamente selecionados para causar emoções. As reações a esse espectro podem ainda, segundo Damásio, serem filtradas por um processo de avaliação ponderada, o que introduz a possibilidade de modulação e gerenciamento dos padrões emocionais preestabelecidos ou aprendidos. A chave para esse autogerenciamento que permite a variação na intensidade da resposta emocional, parece depender, portanto, da aptidão que essa avaliação ponderada tem de alcançar a sensação corporal que é a essência do processo emocional.

Damásio (1996) persiste nessa linha de pensamento ao afirmar de que é possível influenciar intencionalmente, até certo ponto, comportamentos que são conduzidos por padrões neurais inatos. Assim, é cabível segurar a respiração utilizando a força muscular, ou privar-se de alimento pela força de vontade. No entanto, não se pode modular esses padrões inatos em termos de sua suscetibilidade de disparo, somente se alcança pelo esforço voluntário o tipo e a intensidade da resposta ao estímulo.

Os instintos são os mecanismos reguladores do organismo que envolvem os comportamentos visíveis por exigirem respostas volitivas de ação ou inibição da ação. Damásio (1996) explica a regulação por instintos pelo exemplo seguinte: quando o nível de açúcar do organismo desce, os neurônios do hipotálamo levam o cérebro a alterar o estado do corpo para garantir uma correção, a fome é então experimentada pelo organismo e uma ação é tomada para satisfazê-la. Uma vez satisfeita, o hipotálamo detecta um aumento no nível de açúcar e os neurônios responsáveis sinalizam para o organismo que ele pode passar a um estado de saciedade. O sinal para início deste processo partiu do corpo, os sinais para alteração do nível de açúcar afim de salvar o organismo se deu igualmente no corpo e por último, foi do corpo que partiram os sinais de que o organismo não corria mais perigo. Este processo de autogerenciamento é porquanto uma modulação do corpo, pelo corpo, mesmo que sentida e gerida pelo cérebro.

Os mecanismos reguladores garantem a sobrevivência acionando determinados padrões de alteração do corpo referentes a um impulso, que pode ser um estado fisiológico específico como a fome, ou um estado emocional tal qual o medo, ou a raiva. Esse estado pode ter o seu desencadeamento a nível visceral (baixo nível de açúcar), ambiental (uma ameaça), ou mental (a percepção de um perigo iminente). Qualquer um desses estados, independentemente do catalisador que o originou, pode gera uma resposta biorreguladora interna, um padrão de comportamento instintivo, ou um comportamento novo recém-criado, uma combinação de algumas dessas respostas, ou todas elas. As redes de circuitos neurais básicos que se encarregam de executar a operacionalização desse ciclo como um todo estão para o organismo como os freios estão para um carro. (DAMASIO, 1996)

A psicologia formativa é um caminho direto para alcançar essa sensação corporal, essência do processo emocional. Ao apoiar-se no uso do esforço muscular voluntário, ela permit organizar e influenciar os padrões de organização somáticos (corporais e fisiológicos) e emocionais, o seu estado interno e por consequência, o seu senso de identidade.

A prática formativa age precisamente nesse funcionamento neurológico e biológico do corpo descrito por Damásio. Ela tem o seu início no córtex, que permite organizar a habilidade volitiva para influenciar o comportamento e para ampliar o leque de respostas musculares e comportamentais. A prática permite a reorganização das respostas automáticas que o organismo gera, tornando-os expressões de afeto mais facilmente moduláveis.

Arthur Dubrule 

Referências:

DAMASIO, António, O erro de Descartes, São Paulo: Companhia Das Letras, 1996. (p.144-158)

KELEMAN, Stanley, Corporificando a Experiência, São Paulo: Summus, 1995. (p.18,39,17,25)